bem-vindo


Porque se eu não compreender a vida, explica-me.
Porque se eu esquecer a ternura, lembre-me.
Porque Porque se eu não compreender a vida,explica-me.
Porque se eu esquecer a ternura,lembre-me.
Porque se eu me perder no caminho, mostra-me,
e se eu tiver pouco amor, salva-me com a poesia.
{Ita Portugal}
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sábado, 12 de março de 2016

ser estranho

labelleotero.tumblr.com

Ao longe, ao luar, no rio
uma vela, serena a passar,
que é que me revela?
Não sei, mas meu ser
tornou-se me estranho, e eu, 

sonho sem ver os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa, na noite que fica.

{Fernando Pessoa}

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

guarde quem você ama

zsazsabellagio.blogspot.com

Navegue, descubra tesouros,
mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela,
mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe,
elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.
As lágrimas?
Não as seque,
elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces.
O sorriso.
 Esse você deve segurar, não deixe-o ir embora, agarre-o.
Quem você ama?
Guarde dentro de um porta joias, tranque, perca a chave.

{Fernando Pessoa}

terça-feira, 23 de junho de 2015

viajar

Encontrado em siirantolojim.wordpress.com
Viajar.
Perder países.
Ser outro constantemente,
por a alma não ter raízes,
de viver de ver somente.
Não pertencer nem a mim.
Ir em frente, ir a seguir
a ausência de ter um fim,
e a ânsia de conseguir.
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

{Fernando Pessoa}

domingo, 14 de junho de 2015

amor quando se revela


O amor quando se revela,
não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente,
não sabe o que há de dizer.
Fala, parece que mente
cala, parece esquecer.
Ah, mas se ela adivinhasse,
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse
pra saber que a estão a amar.
Mas quem sente muito, cala,
quem quer dizer quanto sente.
Fica sem alma nem fala,
fica só, inteiramente.
Mas se isto puder contar-lhe.
O que não lhe ouso contar,
já não terei que falar-lhe

porque lhe estou a falar.
{Fernando Pessoa}

sábado, 23 de maio de 2015

poema em linha reta

por anna nycz em Flickr
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil.
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita.
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho.
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo.
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas.
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante.
Que tenho sofrido enxovalhos e calado.
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel.
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes.
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar.
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas.
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
nunca foi senão príncipe, todos eles príncipes na vida.
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse, 
não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia.
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos, arre, estou farto de semideuses.
Onde é que há gente no mundo.
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado.
Podem ter sido traídos, mas ridículos nunca.
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil.
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

{Fernando Pessoa}

dias de sol

Encontrado em betseyr.tumblr.com
Se eu pudesse trincar a terra toda
e sentir-lhe um paladar,
seria mais feliz um momento.
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural.

Nem tudo são dias de sol,
e a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade.
Naturalmente, como quem não estranha
que haja montanhas e planícies
e que haja rochedos e erva.

O que é preciso é ser-se natural e calmo
na felicidade ou na infelicidade,
sentir como quem olha,
pensar como quem anda.
E quando se vai morrer,
lembrar-se de que o dia morre,
e que o poente é belo
e é bela a noite que fica.
Assim é e assim seja.

{Fernando Pessoa}

domingo, 19 de abril de 2015

utopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

{Fernando Pessoa}

não digas nada

Encontrado em up-the-wolves.tumblr.com
Não digas nada
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender
Tudo metade
De sentir e de ver
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada
Mas ali fui feliz
Não digas nada

{Fernando Pessoa}

sexta-feira, 17 de abril de 2015

desassossego

Tanto tenho vivido sem ter vivido. 
Tanto tenho pensado sem ter pensado.
 Pesam sobre mim, mundos de violências paradas,
 de aventuras tidas sem movimento.
 Estou farto do que nunca tive e nem terei, 
tediento de deuses por existir. 
Trago comigo as feridas de todas as batalhas que evitei. 
Em mim, o que há de primordial é o hábito e o jeito de sonhar.

{ Fernando Pessoa}

quinta-feira, 5 de março de 2015

capitulos

flickr photo Elsa Spiers
Enquanto não encerramos um capítulo,
não podemos partir para o próximo.
Por isso é tão importante deixar certas
coisas irem embora, soltar, desprender-se.
As pessoas precisam entender que
ninguém está jogando com cartas marcadas,
às vezes ganhamos e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere
que reconheçam seu esforço,
que descubram seu gênio, que entendam seu amor.
Encerrando ciclos.
Não por causa do orgulho,
por incapacidade ou por soberba,
mas porque simplesmente aquilo já não
se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco,
limpe a casa,
sacuda a poeira.
Deixe de ser quem era,
e se transforme em quem é.

{Fernando Pessoa}

domingo, 1 de março de 2015

flores e rios

Se à vezes digo que as flores sorriem 
E se eu disser que os rios cantam, 
Não é porque eu julgue 
que há sorrisos nas flores, 
e cantos no correr dos rios. 
É porque assim faço mais sentir 
aos homens falsos
a existência verdadeiramente 
real das flores e dos rios.

{Fernando Pessoa}

caminhos

Procure os seus caminhos, 
mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão.
Não se acostume com o que não o faz feliz, 
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, 
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte.
Se perceber que precisa seguir, siga.
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca.
Se o achar, segure-o.

{Fernando Pessoa}

querer não é poder

Querer não é poder. 
Quem pôde, quis antes de poder 
só depois de poder. 
Quem quer nunca há-de poder, 
porque se perde em querer.

{Fernando Pessoa}

sentimento

Tenho tanto sentimento que é freqüente persuadir-me
 de que sou sentimental, mas reconheço, 
ao medir-me, que tudo isso é pensamento, 
que não senti afinal. 
Temos, todos que vivemos, uma vida 
que é vivida e outra vida que é pensada, 
e a única vida que temos e essa que é
dividida entre a verdadeira e a errada. 
Qual, porém é a verdadeira e qual errada,
 ninguém nos saberá explicar e 
vivemos de maneira que a vida que 
a gente tem é a que tem que pensar.

{Fernando Pessoa}