bem-vindo


Porque se eu não compreender a vida, explica-me.
Porque se eu esquecer a ternura, lembre-me.
Porque Porque se eu não compreender a vida,explica-me.
Porque se eu esquecer a ternura,lembre-me.
Porque se eu me perder no caminho, mostra-me,
e se eu tiver pouco amor, salva-me com a poesia.
{Ita Portugal}
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sábado, 28 de maio de 2016

essas coisas

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Você não está mais na idade de sofrer por essas coisas.
Há então a idade de sofrer e a de não sofrer mais por essas, essas coisas?
As coisas só deviam acontecer para fazer sofrer na idade própria de sofrer?
Ou não se devia sofrer pelas coisas que causam sofrimento pois vieram fora de hora, e a hora é calma?
E se não estou mais na idade de sofrer é porque estou morto, 

e morto é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 23 de maio de 2015

casa com vida

Encontrado em petitandsmall.com
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre
pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa pra mim, tem que ser casa 
e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando,
esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas.
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato 
o olho e percebo logo: aqui tem vida.
Casa com vida pra mim, é aquela em que os 
livros saem das prateleiras e os enfeites 
brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, 
pelo abuso das refeições fartas, 
que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida pra mim, tem banheiro com 
vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, 
passaporte e vela de aniversário, tudo junto.
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta para os amigos, filhos, netos, vizinhos.
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente 
que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra 
ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias.
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela.
E reconhecer nela o seu lugar.

{Carlos Drummond de Andrade}

sexta-feira, 15 de maio de 2015

não passou

Encontrado em midwesternhoney.tumblr.com
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão, a tua mão, nossas mãos
rugosas  têm o antigo calor
de quando éramos vivos. 

Éramos?
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada que eu sinta passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

{Carlos Drummond de Andrade}

José

Encontrado em modernhepburn.tumblr.com
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


{Carlos Drummond de Andrade}

domingo, 19 de abril de 2015

não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém 
sabe o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão, se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas, vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

{Carlos Drummond de Andrade}

sábado, 18 de abril de 2015

a puta

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade.
A única.
A fornecedora.
Na Rua de baixo onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo
e labaredas torram a língua
de quem disser: 
Eu quero a puta
quero a puta quero a puta.
Ela arreganha dentes largos
de longe. Na mata do cabelo
se abre toda, chupante
boca de mina amanteigada quente.
 A puta quente.

É preciso crescer
esta noite a noite inteira sem parar
de crescer e querer
a puta que não sabe
o gosto do desejo do menino
o gosto menino
que nem o menino
sabe, e quer saber, querendo a puta.

{Carlos Drummond de Andrade}

brasileiro

Eu também já fui brasileiro moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
 pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

{Carlos Drummond de Andrade}

sábado, 28 de fevereiro de 2015

coisas de amor

Coisas de amor são finezas 
que se oferecem a qualquer um
que saiba cultivá-las, distribuí-las, 
começando por querer que elas floresçam. 
E não se limitam ao jardinzinho particular 
de afetos que cobre a área
de nossa vida particular
abrange terreno infinito.

{Carlos Drummond de Andrade}