bem-vindo


Porque se eu não compreender a vida, explica-me.
Porque se eu esquecer a ternura, lembre-me.
Porque Porque se eu não compreender a vida,explica-me.
Porque se eu esquecer a ternura,lembre-me.
Porque se eu me perder no caminho, mostra-me,
e se eu tiver pouco amor, salva-me com a poesia.
{Ita Portugal}
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

é preciso

pinterest.com
É preciso não esquecer nada.
Nem a torneira aberta,
nem o fogo aceso.
Nem o sorriso para os infelizes,
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta,
nem o céu de sempre.

O que é preciso esquecer,
é o nosso rosto, 
o nosso nome,
o som da nossa voz, 
o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer,
é o dia carregado de atos,
a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso,
é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos nossos próprios olhos.
Severos conosco, 
pois o resto não nos pertence.

{Cecília Meireles}

domingo, 7 de junho de 2015

viajo sozinha


Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo,  quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? 
Me perguntarão.
Por não Ter palavras, por não ter imagem.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras?
Tudo.
Que desejas?
Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação.
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
Beijo-te, corpo meu, todo desilusão.
Estandarte triste de uma estranha guerra
Quero solidão.

{Cecília Meireles}

sábado, 23 de maio de 2015

leve

Encontrado em thelittlehermitage.tumblr.com
Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve.
E a cascata aérea de sua garganta, mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve.
E o desejo rápido desse mais antigo instante, mais leve.
E a fuga invisível do amargo passante, mais leve.

{Cecília Meireles}

sexta-feira, 15 de maio de 2015

gargalhada

Encontrado em photographar.tumblr.com
Homem vulgar. Homem de coração mesquinho.
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras.

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?

E colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu.
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas.

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.

{Cecília Meireles}

segunda-feira, 11 de maio de 2015

de que são feitos os dias?

Encontrado em whocoulddowithoutyou.tumblr.com
De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças.

{Cecília Meireles}

domingo, 10 de maio de 2015

entre flor e nuvem

Encontrado em natalieaber.tumblr.com
Sou entre flor e nuvem, estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?
Não encontro caminhos
fáceis de andar;
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar;
E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e
meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.

{Cecília Meireles}

domingo, 3 de maio de 2015

liberdade

Encontrado em lajoiedespetiteschoses.tumblr.com
Liberdade de voar num horizonte qualquer, 
liberdade de pousar onde o coração quiser.

{Cecília Meirelles}

motivo

My name is Never por martikson em Flickr
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço, não sei, não sei. 
Não sei se fico ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo: mais nada.

{Cecília Meireles}

sábado, 18 de abril de 2015

personagem

Teu nome é quase indiferente e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exatamente a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta, nutrida do enigma do instinto.
O lugar da tua presença é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes, silêncio, obscuro, disperso.
Teu corpo, e teu rosto, e teu nome, teu coração, tua existência,
tudo o espaço evita e consome: e eu só conheço a tua ausência.
Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.

{Cecília Meireles}

ninguém me venha dar vida

pinterest.com
Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.

{Cecília Meireles}

sábado, 11 de abril de 2015

enganados

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente, há tanto tempo,
pelo teu corpo, que enlouqueceu.

{Cecília Meireles}

sexta-feira, 3 de abril de 2015

não queiras ser



Não queiras ser. 
Não ambiciones. 
Não marques limites ao eu caminho. 
A eternidade é muito longe. 
E dentro dele tu te moves, eterno. 
Sê o que vem e o que vai. 
Sem forma. 
Sem termo. 
Como uma grande luz difusa. 
Filha de nenhum sol.

{Cecília Meireles}

sábado, 28 de fevereiro de 2015

amor

É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados.
Mas, os vencedores no amor são os fortes. 
Os que sabem o que querem e querem o que têm. 
Sonhar um sonho a dois, e
nunca desistir da busca de ser feliz, é para poucos.

{Cecília Meireles}

felicidade


És precária e veloz, felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras. 
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo, 
 e, para te medir, se inventaram as horas. 
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa, 
fizeste para sempre a vida ficar triste, 
porque um dia se vê que as horas todas passam, 
e, um tempo despovoado e profundo, persiste.

{Cecília Meireles}

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

renova-te


Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.


{Cecília Meireles}

alma [...]


Até quando terás minha alma, esta doçura,
Este dom de sofrer, 
Este poder de amar, 
A força de estar sempre insegura, 
segura como a flecha 
que segue a trajetória obscura fiel 
ao seu movimento, 
exata em seu lugar. 

{Cecília Meireles}