bem-vindo


Porque se eu não compreender a vida, explica-me.
Porque se eu esquecer a ternura, lembre-me.
Porque Porque se eu não compreender a vida,explica-me.
Porque se eu esquecer a ternura,lembre-me.
Porque se eu me perder no caminho, mostra-me,
e se eu tiver pouco amor, salva-me com a poesia.
{Ita Portugal}
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terça-feira, 2 de junho de 2015

nada a fazer

por stefanyalves em Flickr
Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos,
resta-nos um último recurso: não fazer mais nada.
Por isso, digo, quando não obtivermos o amor,
o afeto ou a ternura que havíamos solicitado,
melhor será desistirmos e procurar mais adiante 

os sentimentos que nos negaram.
Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce,
ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição.
Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;
outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés.
Os sentimentos são sempre uma surpresa.
Nunca foram uma caridade mendigada,
uma compaixão ou um favor concedido.
Quase sempre amamos a quem nos ama mal,
e desprezamos quem melhor nos quer.
Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir 
um amor, e falhado, resta-nos um só caminho
o de mais nada fazer.

{Clarice Lispector}

sábado, 23 de maio de 2015

cada dia

Encontrado em theantiquated.tumblr.com
Sobre cada dia ela se equilibrava nas pontas dos pés,
sobre cada frágil dia que de um instante 
para outro 
poderia se partir e cair em escuridão.
Mas ela, milagrosamente o atravessava,
e exausta de alegria e cansaço chegava
a dormir para o dia seguinte,
surpreendida, recomeçar. 

{Clarice Lispector}

quinta-feira, 21 de maio de 2015

meu deus, me dê coragem

wishyouwerehere.soup.io

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta 

e cinco dias e noites,
todos vazios de tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude.

Faça com que eu seja a tua amante humilde, entrelaçada a ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo
e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.

Faça com que eu tenha a coragem de te amar, sem odiar 

às tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia. 


Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim
me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

{Clarice Lispector}

domingo, 3 de maio de 2015

eu adoro voar

Encontrado em 500px.com
Já escondi um  amor com medo de perdê-lo, já perdi um amor por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo ao ponto 
de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz
ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, 
já tive tanta certeza de mim ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde
chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar
nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, 

outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o
que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade.
Já tive medo do escuro, hoje no escuro 'me acho, me agacho, fico ali.'
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, 
já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo, 
mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de 'amigo' e descobri que não eram;
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e 
serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração.
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque
sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre.
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
E daí?

Eu adoro voar.

{Clarice Lispector}

sexta-feira, 17 de abril de 2015

sou uma mulher

Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. 
Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção,
sou um corpo olhando pela janela. 
Assim como a chuva não é grata
por não ser uma pedra. 
Ela é uma chuva. 
Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo 


{Clarice Lispector}

era felicidade

pinterest
Então isso era a felicidade.
E por assim dizer sem motivo.
De início se sentiu vazia.
Depois os olhos ficaram úmidos:
era felicidade, mas como sou mortal,
como o amor pelo mundo me transcende.
O amor pela vida mortal a assassinava
docemente, aos poucos.
E o que é que eu faço?
Que faço da felicidade?
Que faço dessa paz estranha e aguda,
que já está começando a me doer como uma angústia,
como um grande silêncio?
A quem dou minha felicidade,
que já está começando a me rasgar
um pouco e me assusta?
Não, não quero ser feliz.
Prefiro a mediocridade.
Ah, milhares de pessoas não têm coragem
de pelo menos prolongar-se um
pouco mais nessa coisa
desconhecida que é sentir-se feliz

e preferem a mediocridade.


{Clarice Lispector}

sábado, 11 de abril de 2015

primeiro pulsar

flickr.com/#/photos/annaheimkreiter
A verdade é sempre um contato interior e inexplicável.
A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível,
extremamente interior e não tem uma
 só palavra que a signifique.
Meu coração se esvaziou de todo desejo
 e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar.


{Clarice Lispector}

quarta-feira, 1 de abril de 2015

solidão

Minha verdade espantada é que eu sempre estive só. 
Eu e minha liberdade que não sei usar. 
Grande responsabilidade de solidão. 
Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama.
Quanto a mim, assumo minha solidão.
Que ás vezes se extasia como diante de fogos de artifício. 
Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima 
que na solidão pode se tornar dor. 
E a dor silêncio. 
Guardo o seu nome em silêncio. 
Preciso de segredos para viver.


{Clarice Lispector}

segunda-feira, 2 de março de 2015

medo

Há alguma coisa aqui que me dá medo. 
Quando eu descobrir o que me assusta, 
saberei também o que amo aqui. 
O medo sempre me guiou para o que eu quero. 
E porque eu quero, temo. 
Muitas vezes foi o medo que 
me pegou pela mão e me levou. 
O medo leva-me ao perigo. 
E tudo o que eu amo é arriscado.

{Clarice Lispector}